Diz a voz trêmula: “Continue assim”, acato um conselho e não uma ordem.
O orgulho brota nas costas do homem, cega-o num processo de dependência, droga radioativa que circula nas veias da terra e aflora assaltando a vida. Lá fora, as crianças rodopiam de mãos dadas, uma pequena me encara e rodopia, encara e rodopia, depois corre para o escorregador feito um jato, desce a gargalhar, enche a mão de areia que se esvai entre seus pequenos dedos desajustados, iguais aos de um europeu pragmático que vi a pouco num famoso restaurante japonês, tentando pela primeira vez, comer com os pauzinhos, denomino de plano engenhoso. Lá, ela vai, agora, se distrai ao ver um pássaro azul pousar num galho frouxo, quer convencer-me a qualquer custo a criança, quanto orgulho! Posso vê-la vangloriando-se por brincar com o mundo, influenciado lembro-me da pequenez, serei mais exato: lembro-me da ingenuidade, da ignorância...
Na infância, o amor próprio exagerado manifesta-se brincando, lisonjeado, sabe desde o começo dos tempos que a época propícia é aquela, melhor não há, pois lhe permite invadir cativando.
Idéia tola de que aquilo que capto marca a falta de razão, totalmente o contrário, a voz, a tremer meus órgãos, aconselha por meio de duas palavras impetuosas, graves, acolho-as prazeroso e convencido de que me infiltro bem na sociedade, diferentemente de um louco, por isso respeito a voz que diz “Continue assim”. E continuo andando livre como uma águia sobrevoando presas, combatendo orgulhos, machucando com picadas ferozes, eu a secar poços de corpos e de espíritos, para que, assim, eu possa arrancar a falsa ilusão de que a existência vale alguma coisa.
“Deus está em ti!” Quanta pretensão! Tu és filho do pai e andas pela casa do pai, mas ao invés de colocar-se em seu lugar, vasculhas o mundo como uma mulher ciumenta. Dono de tudo, assim é o animal que pensa e que já começa errante por se achar melhor só porque julga saber o que levam suas ações, liga coisas a coisas que nem compreende e manuseia teorias circenses apoiado numa metafísica orgulhosa que espelha toda a natureza humana.
Sou um inimigo dos orgulhosos, sou um invejoso, só um invejoso para combater o orgulho dos outros, quanto aos meus, só posso esforçar-me a desprezá-los usando de um estado depressivo, profundo, caótico, mas não ligo, a dor dos pensamentos fortalece o corpo tal qual a dor física, por fim, sigo forte como um burro que empaca, conformado ouço a frase: “Continue assim” concluindo que o melhor é empacar de maneira mais imutável possível, para evitar qualquer pretensão.
Diogo Poeta
Nenhum comentário:
Postar um comentário