sábado, 22 de março de 2008

Guimarães Rosa

Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco.
Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície, são muito vivazes e claros.
Mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como o sofrimento dos homens.

Guimarães Rosa

domingo, 9 de março de 2008

Nesta morada de concreto

Nesta morada de concreto, figura o toque leve do tempo como se ela tivesse sido na idade de seu princípio, um grão. Como se o céu a regasse com o igual imenso cuidado que derrama, nas folhas secas, vida.
Assim, respeito a minha morada, a sua face que a vejo rosada em idéias de sangue quente a percorrê-la, um Deus que me conforta e me protege do frio e das trivialidades ou ao menos deveria.
É numa espera constante que repito as mentiras em meu mais íntimo segredo, falta-me vigor, pois me falta entusiasmo, um significado que valha a esperança diluída, um significado tão maior quanto Deus, embora não haja significado em “Deus” que me traga contentamento.
Peço, apenas, mais palavras no dicionário do mundo, mais competição por espaço entre os vizinhos, flores pedintes por mais desejo de sol, problemas que livro nenhum de auto-ajuda possa ensaiar. Mas o certo seria clamar por um significante solto num pasto, um só, livre de que lhe venha um indivíduo a roubar-lhe uma costela, fazendo desse pobre diabo um incansável ser sem par.
Desejei uma só flor no mundo e que houvesse uma só flor no mundo, desejei que não houvesse pluralidade, desejei ter tudo a minha frente ou uma boa parte. Desejei como apenas uma criança é capaz de querer, quis só uma visão existente e, sonhando desperto, num breve espaço, não vi uma verdade a não ser a minha a se perpetuar nas coisas.

Diogo Poeta

quinta-feira, 6 de março de 2008

Escadaria para o paraíso

Há uma senhora que acredita
Que tudo o que brilha é ouro
E ela está comprando uma escadaria para o paraíso
Quando ela chega lá ela descobre
Que se as lojas estiverem todas fechadas
Com apenas uma palavra ela consegue o que veio buscar
E ela está comprando uma escadaria para o paraíso
Há um cartaz na paredeMas ela quer ter certeza
Porque você sabe que às vezes as palavras
Têm duplo sentido
Em uma árvore a beira do riacho
Há um rouxinol que canta
Às vezes todos os nossos esforços são em vão
Isto me faz pensarIsto me faz pensar
Há algo que sintoQuando olho para o oeste
E meu espírito chora para partir
Em meus pensamentos tenho visto
Anéis de fumaça atravessando as árvores
E as vozes daqueles que ficam parados olhando
Isto me faz pensar
Isto realmente me faz pensar
E um sussurro avisa que é cedo
Se todos entoarmos a canção
O flautista nos levará à razão
E um novo dia irá nascer
Para aqueles que suportarem
E a floresta irá ecoar gargalhadas
Se há um alvoroço em sua horta
Não fique assustada
É apenas limpeza de primaveril da rainha de maio
Sim, há dois caminhos que você pode seguir
Mas na longa estrada
Há sempre tempo de mudar o caminho que você segue
E isso me faz pensar
Sua cabeça lateja e não vai parar
Caso você não saiba
O flautista te chama para se juntar a ele
Querida senhora, pode ouvir o vento soprar?
E você sabe
Sua escadaria repousa no vento sussurrante
E enquanto corremos soltos pela estrada
Nossas sombras são mais altas que nossas almas
Lá caminha uma senhora que todos conhecemos
Que brilha luz branca e quer mostrar
Como tudo ainda vira ouro
E se você ouvir com atenção
Ao menos a canção irá chegar a você
Quando todos são um e um é o todo
Ser uma rocha e não rolar.


Led Zeppelin
As sem-razões do amor


Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.


do mestre Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 4 de março de 2008

Teste.

Veja nesse teste como você entendeu este assunto.

01. Fui ___ escola.
02. Não me refiro ___ secretária, mas ao secretário.
03. Os guardas ficaram ___ distância.
04. Os guardas ficaram ___ distância de cem metros.
05. Creusa gosta de andar ___ cavalo.
06. Não entregue isto ___ ninguém.
07. Ontem fui ___ Santos; estou cansado, hoje não vou ___ aula.
08. Não vou ___ Brasília, vou ___ Bahia, ___ essa nossa encantadora Bahia.

E não esqueça comente sobre esta postagem ok.

CRASE

Em uma conversa com um amigo um dia desses sobre crase percebi algumas dúvidas
por parte deste, achei interessante então colocar aqui este assunto, espero que ajude
a quem tem as mesmas dúvidas.

Temos que ter em mente que crase e acento são conceitos distintos; acento
grave (`) é o sinal que indica a fusão de dois aa, ou seja, é o acento indicador da
crase, está por sua vez é o fenômeno que causa a fusão de sons idênticos que podem
ocorrer de duas formas :
* combinação da preposição a com o artigo definido ( a , as )
* combinação da preposição a com pronome demonstrativo
( aquele , aquela , aquilo )
I-) CASOS OBRIGATÓRIOS DE CRASE
) Antes de substantivos femininos que exigem artigo, caso o termo
regente exija preposição .
Ex.: Devemos obedecer às leis de trânsito .
Vou à cidade hoje à tarde .
DICA : Troca-se um substantivo feminino por um substantivo
masculino ,verificando-se a possibilidade da troca de a por ao .
) Com os pronomes demonstrativos aquele, aquela, aquilo, desde
que o termo regente exija o emprego da preposição a .
Ex.: Fui àquele cinema ontem.
Procure dirigir-se àquela farmácia .
) Com os pronomes a , as quando demonstrativos representando
aquela ou aquelas , com o termo regente exigindo preposição .
Ex.: Esta cena é igual à que vi ontem .
Estas casas são iguais às que vi ontem.
) Antes dos pronomes relativo a qual ou as quais , com o termo
regente exigindo preposição .
Ex.: Esta é a loja à qual me referi .
São as inundações às quais fiz alusão ontem .
) Na indicação de horas , antes de seus respectivos numerais .
Ex.: Você veio às dez horas das escola .
Chegamos da excursão às 19 horas .
) Nas locuções adverbiais constituídas por palavras femininas .
Ex.: Sentiu-se à vontade para dirigir o carro .
Ás vezes íamos ao cinema .
) Nas locuções prepositivas formadas por palavras femininas .
Ex.: Vivemos à custa de seu tio .
Era bonito o entardecer à beira da praia .
) Nas locuções conjuntivas : à medida que , à proporção que .
Ex.: Meu desespero aumenta á medida que o tempo passa .
A saudade crescia à proporção que chegavam as cartas .
) Antes de palavras masculinas ou femininas , com a omissão da palavra
moda ou maneira .
Ex.: O aluno fez uma redação à Machado de Assis .
Nós gostamos de bifes à milanesa .
10°) Antes de nomes de lugares com modificador .
Ex.: Voltarei à Ribeirão Preto das belas garotas .
Devo voltar à bela Roma amanhã .
DICA : Em referência a nomes de lugares , oriente-se assim : quem vai
a e volta da crase há ; quem vai a e volta de não há crase .
II-) CASOS PROIBITIVOS DE CRASE.
) Antes de substantivos masculinos .
Ex.: Nós gostamos de andar a cavalo .
Sua camisa está cheirando a suor .
) Antes de verbos .
Ex.: Prefiro morrer a ver isso acontecer .
Estamos dispostos a resolver o caso .
) Antes de todos os pronomes que não admitem artigo .
Ex.: Dei a esta moça o melhor presente .
Dirijo-me a Vossa Excelência com respeito .
Obs.: Os pronomes de tratamento senhora e senhorita constituem
exceção por admitir artigo.
Ex.: Peço à senhora que fique tranqüila .
) Antes de palavras no plural que não são definidas pelo artigo .
Ex.: O Prefeito não dá ouvidos a reclamações .
Eles discutem a portas fechadas .
) Nas locuções adverbiais formadas por palavras femininas repetidas .
Ex.: Gota a gota a água cairá do balde .
Os ladrões encontravam-se cara com a polícia .
) Na expressão a distância .
Ex.: Os pais observam os filhos a distância .
Aquela escola mantém curso supletivo a distância .
Obs.: Se a expressão for determinada , a crase será obrigatória .
Ex.: O guarda olhou-nos à distância de vinte metros .
) Antes da palavra casa quando indica residência própria de quem
fala ou da pessoa a quem se faz referência .
Ex.: Chegaram a casa e não disseram nada .
Não fui a casa hoje nem para almoçar .
Obs.: Se a palavra casa aparece com modificador , usa-se a crase .
Ex.: Márcia voltou à casa de mãe para buscar dinheiro .
) Antes da palavra terra quando antônima de bordo .
Ex.: Os marujos ainda não vieram a terra .
As naus já voltaram a terra .
) Antes do artigo indefinido uma .
Ex.: Entreguei o documento a uma senhora .
Nós devolvemos o formulário a uma funcionária da secretaria .
10°) Antes de nomes de lugares .
Ex.: Nós iremos a Ribeirão Preto .
Chegamos a Roma cedo .
11°) Antes de numerais usados indeterminadamente .
Ex.: Ela nasceu a 14 de abril de 1961 .
O número de carros acidentados chegou a duzentos .
12°) Antes da palavra Dona .
Ex.: Entreguei o livro a Dona Neusa .
Não conte isso a Dona Cláudia .
III-) CASOS FACULTATIVOS DE CRASE.
) Antes de pronomes possessivos femininos .
Ex.: Não me referi a ( à ) sua capacidade .
Ofereçam um bom salário a ( à ) nossa funcionária .
) Antes de nomes próprios femininos referentes a pessoas .
Ex.: Refiro-me a ( à ) Cíntia .
Dei isto a ( à ) Denise .
) Com a locução até a .
Ex.: Vou até a ( à ) cidade mais tarde .
Fui até a ( à ) farmácia , mas volto logo .
) Antes destes nomes próprios de lugares : Europa, Ásia, África, França,
Inglaterra, Espanha , Holanda , Escócia , Flandres .
Ex.: Levei a ( à ) França todas as minhas ambições .
Fui a ( à ) Europa no ano passado .

sábado, 1 de março de 2008

Perdas poéticas

Perco, em média, três poemas por semana
por desatenção e desmazelo.
Ainda há pouco um solicitou-me a atenção
e perdulário fingi não vê-lo.

Ah, o que perco por soberba
o que perco talvez por não aceitar
o que eu mesmo me ofereço.

Os que me vêem passar
me pensam rico, no entanto,
o que perdi não tinha preço.


Affonso Romano de Sant'Anna

MURAL DE RECADOS

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