domingo, 9 de março de 2008

Nesta morada de concreto

Nesta morada de concreto, figura o toque leve do tempo como se ela tivesse sido na idade de seu princípio, um grão. Como se o céu a regasse com o igual imenso cuidado que derrama, nas folhas secas, vida.
Assim, respeito a minha morada, a sua face que a vejo rosada em idéias de sangue quente a percorrê-la, um Deus que me conforta e me protege do frio e das trivialidades ou ao menos deveria.
É numa espera constante que repito as mentiras em meu mais íntimo segredo, falta-me vigor, pois me falta entusiasmo, um significado que valha a esperança diluída, um significado tão maior quanto Deus, embora não haja significado em “Deus” que me traga contentamento.
Peço, apenas, mais palavras no dicionário do mundo, mais competição por espaço entre os vizinhos, flores pedintes por mais desejo de sol, problemas que livro nenhum de auto-ajuda possa ensaiar. Mas o certo seria clamar por um significante solto num pasto, um só, livre de que lhe venha um indivíduo a roubar-lhe uma costela, fazendo desse pobre diabo um incansável ser sem par.
Desejei uma só flor no mundo e que houvesse uma só flor no mundo, desejei que não houvesse pluralidade, desejei ter tudo a minha frente ou uma boa parte. Desejei como apenas uma criança é capaz de querer, quis só uma visão existente e, sonhando desperto, num breve espaço, não vi uma verdade a não ser a minha a se perpetuar nas coisas.

Diogo Poeta

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