domingo, 27 de abril de 2008

"São Paulo"

Acordo ao som de buzina...
Almoço cheirando gasolina...
Ando a cem por hora...
Amo nesta cidade sem demora...

Alguns a odeiam...
Outros, como eu, a amam!
Muitos a acham um manicômio...
Eu a contrai em matrimônio!

Isto mesmo!!, casei com São Paulo!
É o meu eterno amor!
A mais bela flor!

Defendo-te sempre minha São Paulo.
Pra mim tu és "a virgem dos lábios de mel"
Um pedacinho do meu céu!


quinta-feira, 24 de abril de 2008

Quando Vier a Primavera

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme

Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se soubesse que amanhã morria E a Primavera era depois de amanhã,

Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro

Pastor do Monte

Pastor do monte, tão longe de mim com as tuas ovelhas
Que felicidade é essa que pareces ter — a tua ou a minha?
A paz que sinto quando te vejo, pertence-me, ou pertence-te?
Não, nem a ti nem a mim, pastor.
Pertence só à felicidade e à paz.
Nem tu a tens, porque não sabes que a tens.
Nem eu a tenho, porque sei que a tenho.
Ela é ela só, e cai sobre nós como o sol,
Que te bate nas costas e te aquece,
e tu pensas noutra cousa indiferentemente,
E me bate na cara e me ofusca. e eu só penso no sol.

Alberto Caeiro

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Sou eu

Eu sou vitória! O vento não me apagou a chama
E as fossas fervidas no tempo
Não me terão em cinzas
Nem a terra me terá como adubo
Saí da minha própria fôrma
Utilizei do meu próprio fermento
Nasci do meu ventre já sabido
E quando chegares a ver fecharem-se as cortinas,
Ventre trancado num retrocesso de pedra,
Fui eu!


Diogo Poeta

Como a vida de qualquer coisa

É a minha vontade particular de ser-me em particular,
A quem vão meus versos?
Este borrão de tinta manobrado é o meu polegar direito que me diz?
Para qual lugar levei todo o leite materno de minha mãe?
São de espasmos fortes e frágeis as minhas saudades
Como a vida de qualquer coisa,
São batidas de pernas e braços num mar sem fundo
Tragam-me minha cor!
Tragam-me o preto e o branco!
É de espasmos fortes e frágeis a longitude da reta,
Da certeza, de toda a merda que há no mundo
A enorme vontade de ser-me em particular algo para mim mesmo
É o que mais me fede, de longe é a chaga do meu suor,
Cada esperança minha de encontrar-me aqui, dói.


Diogo Poeta

MURAL DE RECADOS

Abrir Mural de Recados