quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Crônica

O trem

Certa vez, fazia uma viajem de trem e percebi um banco vago, outras pessoas por ali liam, outras conversavam e assim diziam:

- Você viu ontem na novela o beijo da atriz.

- É não tem jeito mesmo os preços aumentam e nossa aposentadoria cada vez mais diminui.

- Olha o amendoim torrado - dizia um menino passando e se equilibrando com os solavancos da composição.

- Caneta, olha a caneta.

- Olha o livro de receitas.

Uma torre de babel de produtos que a cada estação o vagão perdia alguns e logo em seguida recuperava mais uns dez.

- Esconde, esconde olha os home! - Gritou alguém lá do fundo.

- Tô desempregado e preciso de ajuda para dá de comer pros meu filho, me acuda pelo amor de Deus!

Fico um tanto curioso por que aquele banco ainda continua vazio, por certo não é reservado para gestantes nem para deficientes, ou tampouco para idosos, não é de cor diferente e nem tem aqueles adesivos.

É um mundo diferente dentro desses vagões que transitam durante o dia, que levam e trazem dezenas de pessoas, sabe lá pra onde e traz sabe lá de onde, só sei que estive lá naquele dia ou de vez em quando, mas com certeza com um destino.

- Moço, vai ai uma balinha de hortelã.

- Não obrigado, não gosto de hortelã.

- Mas tem de limão, de uva, de banana.

- Não, muito obrigado.

Peguei um jornal que havia sido deixado ali no banco ao lado, para ler a primeira noticia : Açougueiro mata amante da esposa dentro de casa.

Fechei o jornal e fiquei olhando a paisagem que passava diante da janela de belos trens espanhóis comprados a preço de novos, e via um belo jardim por toda o caminho composto por lindos pés de capim gordura e outros tipos de ervas daninhas.

Mas de repente olhei e vi aquele banco vazio, seria um tipo de teste, ou seria um novo equipamento ali colocado, como entrei no trem em uma estação bem depois da inicial não saberia dizer o porque.

Olho no relógio, acho que vou chegar a tempo para meu encontro - pensei comigo.

- Atenção senhores usuários estamos parando por pobremas técnicos na linha.- não fui eu que errei, o maquinista disse pobremas mesmo.

Só me faltava essa, preso aqui até sabe quando, ja não bastava a distância agora também essa parada do trem, uma coisa é certa os vendedores terão muito tempo para vender seus produtos.

- Olha a bala de hortelã, limão, uva, manga, banana.

Um estalo e... Viva! O trem novamente começa a andar, devagar mas está andando.

Então, olho para aquele banco e ele continua vazio, mas é contra a lei da natureza humana em um lugar cheio de pessoas ninguém ocupá-lo.

O trem continua seu caminho deixando para trás as paisagens estáticas. De repente um lance rápido de algo perdido em algum momento perdido dentro daquele mundo perdido, encontra-se uma revelação a chamar a atenção de quem espera que o tempo seja cúmplice de novas descobertas.Uma gota.

- É, uma gota caída daquele banco abandonado, inundado, a espera de alguém que lhe de um pouco de calor humano, mesmo que seja de uma bunda.

Parou!

Nova estação, as portas se abrem e entra uma alma vinda de onde poucas transitavam.

Ele mira o banco, o banco mira-o, eles se querem, eles se desejam, o primeiro lança um olhar cativante, possessivo, o segundo age com resignação esperando o momento do triunfal encontro. Chega então o momento decisivo – Puta que o pariu não senta - Nunca pensei tão alto em minha vida.

Mas era tarde, inundou-se o rabo.

2 comentários:

Diogo Poeta disse...

Diogo relembra...

Meu amigo,Poeta, como é bom rever "O trem", "a gota". Acompanhei, numa bela cadeira cativa, o dia em que você criou esse universo uno e tão familiar. Captar o cotidiano e reproduzí-lo como um Deus, é ou não é tentador? Claro que é. Continue, meu amigo Poeta, a provar desse poder, para que eu continue a me deliciar com a sua criação. Até a próxima...

José Rosa (ZeRo S/A) disse...

Quando a esmola é demais....rs...rs..rs..rs..

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